Infortuna

Infortuna

Vozes se fundiam umas às outras formando um cochicho levemente alto e incompreensível, mas entre todas, apenas uma se sobressaía. Uma voz rouca, se esforçando para aparecer e, ao mesmo tempo, não sair alta demais conduzia um grupo de estudantes, mostrando telas e esculturas famosíssimas, ali presentes no museu. O homem não se sentia confortável com todos aqueles quadros e esculturas encarando-o. Até as paredes pareciam ganhar olhos. Desconfortável, ele esfregava as mãos freneticamente, aquecendo-as do frio congelante do lado de fora e vagava sem rumo pelos corredores não muito cheios do museu.

Após desviar o olhar de uma imagem sem cabeça, fixou-o em um quadro. Nada que chamasse muito a atenção a princípio. Apenas uma imagem borrada e sem sentido que ganhou alguns segundos de sua atenção. Não muito tempo. Apenas o necessário para que um transe o fisgasse, fazendo-o chegar mais e mais perto. A alguns metros da tela, um sentimento estranho tomou conta de sua mente. Lembranças antigas, quase tão incompreensíveis e apagadas quanto o quadro, vieram à tona.

A tela, aos poucos, foi ficando mais nítida. Só suficiente para que o homem pudesse reconhecer uma noite escura e aparentemente fria abraçando uma pequena cidade em um vale rodeado por montanhas. Ele parecia sentir o vento fluindo por entre as estreitas ruas da vila e acariciando seu rosto, trazendo um estranho cheiro de cinzas, que vinham, talvez, das lareiras nas modestas casinhas, mesclado com um doce aroma de dama-da-noite. Algumas estrelas dividiam o céu com a Lua, que poderia facilmente ser confundida com qualquer outro astro. À sua esquerda, o vulto de uma moita, talvez uma árvore, não sabia ao certo. Cobria uma grande parte da pintura, como se  o pintor tivesse se arrependido do que havia pintado anteriormente e quisesse esconder algo… Um arrepio então viajou pelo seu corpo, subindo por suas pernas, braços e pescoço. O que fazia um quadro como aquele em um museu de respeito?

Já não sabia mais se haviam sido dois minutos ou duas horas em frente à tela e muito menos lembrava o motivo de ter ido ao museu. O grupo de estudantes já havia deixado a sala, mas alguma coisa prendia sua atenção e impedia que fizesse o mesmo. O que? Confuso e intrigado, percebe que nenhuma outra opção lhe restava, senão sair. O frio daquela noite era insuportável, congelando seus dedos dentro dos bolsos de lã de seu casaco.

Era tarde ao se deitar de bruços em sua cama, que aliás nunca pareceu tão confortável. Por algumas horas, milhões de aromas, estalos e imagens passaram por sua cabeça. O calor. Um calor insuportável repentinamente chegara, mais forte que nunca! Sem nem tempo de reagir à súbita mudança térmica, adormeceu. Em seu sonho, o fogo. Ardendo em sua frente, chamas queimavam um vilarejo peculiarmente familiar, e ,perdida entre tantos gritos, uma voz conhecida pedia por socorro. Era conhecida. Ele tinha certeza, mas não saberia dizer quem era. Ao menos, era esse seu desejo. Esquecê-la.

A luz do sol começava a aparecer por entre os prédios quando despertou. O gelo formado às margens do rio que cruzava a cidade brilhava. Sem dúvida uma imagem deslumbrante, mas o homem só tinha olhos para uma. Apenas uma imagem chamava por seu nome. Ele não queria, mas algo o forçava a voltar ao museu, algo que não lhe dava escolha e quando deu por si, já estava em frente ao quadro novamente.

O brilho das estrelas estava mais intenso e ele apertava os olhos de tão forte a luz que vinha do céu. As lembranças eram mais claras agora. Assim como a tela, as memórias infortunas e que haviam demorado tanto a esquecer cresciam e vinham em sua direção. O quadro aos poucos foi consumindo o chão, as paredes… O teto não era mais teto, era céu e o brilho da Lua era mais fraco com a fumaça impedindo sua passagem. Também era visível o fogo. O frio desaparecera e em seu lugar, novamente o calor. Insuportável, que queimava suas sobrancelhas e consumia sua alma.

Baseado em “A Caçada”, de Lygia Fagundes Telles.

Texto escrito por Bruno Pini;

Ilustração feita por William Capone;

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Trovões

Trovões

-O que?! Mas… Mas como?

Já não se sabia qual dos dois estava louco. A piada havia deixado de ser piada fazia algum tempo, nem saberiam dizer quanto. A expressão da mulher não era mais a mesma e apesar da discrição minuciosa do homem e também do fato dele poder jurar por sua vida que o que via era verdade, ela não via o mesmo. Na realidade, a verdade era que os dois temiam estar loucos ou pior…

A imaginação do ser humano é fértil. Sempre foi. Aviões ou estrelas-cadentes na escuridão de um céu à noite, podem facilmente virar OVNI’s aos olhos humanos, assim como em todo o lugar é possível reconhecer um rosto, mesmo que este tenha dois feijões como olhos, e uma banana como boca. Mas nesse caso era diferente.

Ao barulho estridente de raios estourando durante uma tempestade típica de verão, a tensão aumentava. Nenhum dos dois prestava mais atenção ao filme que haviam alugado.

-Escute aqui, mulher! É melhor parar com essa brincadeira! Não tem mais graça!- Definitivamente a raiva tomou conta do homem.

A mulher por outro lado, estranhamente, parecia calma. Apesar de não estar entendendo nada, com os sete anos de namoro, ela aprendeu a se acostumar com as brincadeiras e trotes de seu parceiro. Algo naquela noite, porém, não fazia sentido. Ela conhecia-o bem e sabia que não faria um trote como aquele, depois de uma briga como a da noite passada.

O silencio tomou conta da sala, enquanto fúria, medo, angustia e impaciência invadiam as almas do casal. O homem não tirava os olhos da gaveta, enquanto a mulher, intrigada observava-o com certo ar de curiosidade. Ele não tirava o sonho que teve na noite anterior da cabeça fazia algum tempo. No sonho, completamente sem estrutura, o homem se afogava em aguas turbulentas, mas não conseguia nadar e tentar se salvar. Aquele sonho realmente o assustara.

Nada que ele dizia fazia mais sentido para ela. Era como se o homem estivesse lendo um dicionário, com todas as palavras vagando o ar, formando uma grande frase sem sentido algum, que entrava por um ouvido, e saía por outro.

O transe dos dois cessou após um trovão, mas discussão continuava, como nenhum dos dois ia checar a gaveta. Com o filme nos créditos e a dúvida no ar, a mulher finalmente levantou, e andou lentamente em direção a gaveta. O homem nem se movia, e os poucos segundos necessários para que ela chegasse à gaveta pareciam horas, enquanto a tensão aumentava mais e mais.

-O que está esperando?- Ao menos ele parecia mais calmo.

-Não vou abrir essa coisa sozinha! Te conheço bem… O que você pôs aqui?

Um raio caiu a alguns metros do prédio (o mais forte até então). Lentamente o homem levantou e foi em direção a mulher. Ele definitivamente não queria, mas precisava. Um sentimento de remorso e arrependimento se espalhou pelas veias do homem, enquanto, à passos curtos, ele chegava mais perto da mulher.

-Vamos homem! Não temos a noite toda!

Eram três e meia da manhã, mas nenhum dos dois parecia perceber isso. Mais um raio.

-Esse foi perto…- Comentou o homem, como se usasse o raio como desculpa para enrolar mais.

Finalmente, ele estava ao lado da gaveta. Os dois hesitavam só de pensar em abri-la. Um estrondo fortíssimo então ecoou pela sala, e a luz se apagou. Estavam tão assustados quanto uma criança de oito anos assistindo um filme de terror, e demoraram algum tempo até raciocinar que um transformador havia estourado na rua.

A mulher não demorou a chegar com duas velas não mão, e após posiciona-las perto da gaveta, falou:

-Ok. Você vai dizer logo que estava só brincando ou vamos mesmo ter que abrir esse troço?

Não foram necessárias palavras para a mulher entender que teria que abri-la. Os dois se prepararam para o pior, e lentamente ela aproximou a mão do puxador. O homem olhava fixamente para a gaveta, enquanto a mulher tremia absurdos. Novamente um raio caiu ao seu lado. O susto havia sido ainda maior, e tiveram de parar toda a preparação para fechar a janela. A chuva havia ficado mais forte.

Ao menos esses segundos de intervalo fizeram com que os dois se acalmassem. O homem, porém, ainda afirmava ver a luz saindo pelas frestas da gaveta. Era necessário abri-la ou nenhum dos dois conseguiria dormir.

-Amor?- Quase em uníssono, os dois cochicharam.

Como se não bastasse o tempo desperdiçado até então, o casal ainda enrolou mais um pouco, até finalmente o homem tomar coragem. Abriu uma frestinha. Um vento frio, úmido e  constante saía da gaveta acariciando o rosto dos dois. O medo fora tomado por um transe novamente, mas dessa vez, a mulher podia ver o que o homem descrevia. Ela não confessou, mas podia ver um brilho fosco e forte que saía da gaveta e iluminava uma tremula faixa no teto.

Aos poucos o homem foi abrindo mais… Não mais de 10 centímetros haviam sido abertos quando um barulho fortíssimo explodiu nos ouvidos do casal. Depois disso, apenas o que se ouviu foi a fúria da água geladíssima entrando por seus pulmões, e encharcando seus corações.

Texto e ilustração feita por Bruno Pini.

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O Amor E Suas Fases

O amor é diferente em cada fase da vida. Quando se é mais novo, o amor é apenas um sentimento novo, ainda não muito trabalhado e o qual ainda é desconhecido, não ha com o que se preocupar e ele parece durar para sempre, mas isso muda. O amor tem diferentes fuções na vida. Quando uma determinada idade é alcançada, o amor passa a ser considerado acima de tudo, companheirismo e não só paixão, as vidas são divididas completamente, e esse sentimento é uma prova do quão podemos ser generosos e compartilhar dos seus problemas, e dos problemas da outra pessoa. Mas o problema é quando se ama na adolecencia, tudo parece mais intenso por um instante. No inicio, o mundo parece mais colorido e todos a sua volta parecem mais felizes, mas na verdade o amor é que nós deixa cego, e nos impossibilita de ver a realidade. E logo depois, seu mundo parece acabar, sim aquele mesmo mundo de antes que era colorido, perde sua cor e a sua vida, e voce ja não sabe mais o que fazer, tudo o que voce mais quer é esquecer aquela pessoa, mas na verdade, tudo o que voce consegue é pensar nele(a). Voce perde o estimulo a vida, e nada faz mais sentido. E isso se repete vezes e mais vezes, e o pior é que nunca aprendemos a lição, fazemos tudo pelo outro e não ganhamos nada em troca, a não ser noites infelizes e solitarias no seu quarto escuro. Muitos não sabem o que é amar até alcançar os 50 anos, e temos que nos acostumar com isso. A questão é, até que ponto vale a pena ir pelo outro?

Texto escrito por Fabiana Cerutti em http://fabicerutti.tumblr.com/post/3407932414/o-amor-e-diferente-em-cada-fase-da-vida-quando-se .

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